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Quando o poder perde o limite

Publicada em: 10/02/2026 07:31 -

Tem hora em que a política deixa de ser disputa de ideias e vira briga de gente grande agindo pequeno. O limite some, o bom senso pede licença e o que deveria ser responsabilidade pública se transforma numa guerra particular. Já não se trabalha para a cidade; trabalha-se para derrotar o outro.

A mudança é fácil de perceber. A crítica deixa de buscar solução e passa a procurar ferida. O erro do adversário não é oportunidade de correção, é chance de humilhação. A denúncia deixa de ser instrumento de justiça e vira arma de conveniência. Não importa se resolve — importa se machuca.

Quando o poder chega a esse ponto, instala-se o campeonato do “quem cai primeiro”. Vale espalhar suspeita, levantar dúvida, tensionar bastidor, criar narrativa. Gasta-se mais energia armando armadilha do que construindo saída. A política vira um eterno puxão de tapete, e ninguém mais anda para frente porque todos estão ocupados tentando derrubar alguém.

 

No discurso, todo mundo continua dizendo que é pelo povo. Mas, na prática, o povo vira plateia de um espetáculo cansativo. Quem está na ponta, esperando remédio, obra, atendimento ou respeito, percebe rapidamente quando a prioridade deixou de ser governar e passou a ser guerrear. A cidade trava enquanto as vaidades aceleram.

E há um detalhe cruel: quando um lado torce para o outro fracassar, quem fracassa junto é a população. Se dá errado, não é o rival que sofre — é o trabalhador, é a família, é o bairro. Transformar a falha do outro em vitória pessoal é comemorar em cima do prejuízo coletivo.

Poder sem limite perde a grandeza. A autoridade fica barulhenta, mas pequena. Fala alto, aponta dedos, promete revelações bombásticas, mas entrega pouco do que realmente muda a vida de alguém. Produz manchetes quentes e resultados frios.

Enquanto isso, a confiança vai embora. O cidadão começa a olhar para a cena política com descrença, como quem assiste a um jogo combinado onde ninguém representa de verdade o interesse público. E recuperar essa confiança depois é tarefa dura, demorada e, às vezes, impossível.

No fim, a conta sempre chega. Porque mandato passa, cargo muda, cadeira troca de dono. Mas a lembrança de quem preferiu destruir em vez de construir costuma ficar. O poder pode até se achar forte na hora do ataque, mas a história costuma ser implacável com quem exagera.

 

Quando o limite se perde, a política perde junto. E quem mais precisava dela é quem mais sente sua ausência.

FONTE-MT E NOTICIA

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